13

 

Foi no ônibus voltando pra casa, depois de passar meu primeiro dia, no meu primeiro emprego depois de formado que eu me dei o direito de pensar sobre estas coisas de novo. Antes mesmo de embarcar, notei aquele grupo de pré-adolescentes, com seus 12-13 anos, segurando uma garrafa meio-vazia de Coca Cola 2 litros, esperando o transporte público. Eram três, uma guria e dois guris. Ela cantava, com voz virginal, uma musiquinha que ironizava o amor, enquanto os outros dois tentavam acompanhá-la, cantando os últimos versos de rimas fracas.

Vi meu ônibus chegando e, enquanto me dirigia até o local que esperava que ele parasse, torcia para que fosse o mesmo que o deles. Me adiantei e subi os degraus, sem olhar para trás, sem mostrar que eu esperava que eles fizessem o mesmo. Segui pelo corredor estreito, obstinado, tentando escutar por entre os barulhos à minha volta, aquela mesma voz que, não a mim, mas àqueles meninos, parecia representar tanto.

Foi quando eu já sentava que voltei a escutá-la:

- Três passagens, por favor. – ela disse ao cobrador, ao mesmo tempo que alcançava uma nota amarela de 20 reais.

Os dois, um com um nariz grande e cabelos mau-cortados, e o outro com um rosto mais harmônico, mas que vestia roupas claramente escolhidas por sua mãe, acompanhavam a menina, rindo, enquanto ela guiava o caminho. Não me surpreendi quando, ao passar por todos os bancos já ocupados, os três se puseram quase que em fila indiana em frente a mim.

Ela, com sua camiseta de rock genérica, o meio que bonitinho logo a seguir e o narigudo, quase que esquecido atrás. Sem perder tempo, peguei três folhas brancas e comecei a escrever essas linhas, enquanto notava que ela me encarava. Talvez tivesse percebido que eu prestava atenção nos três, e não entendia o que eu fazia equilibrando a pasta branca e folhas em meu colo. Ao mesmo tempo que escrevia, espiava os seus movimentos com o canto dos olhos.

O narigudo fazia palhaçadas, se pendurava sob o apoio para os braços, chamando atenção; o outro ria; e, os dois, não da mesma forma que eu, espiavam os movimentos dela enquanto fingiam fazer essas outras coisas. Ela tinha o cabelo bagunçado, não sujo, mas sem pentear, preso em um rabo de cavalo indisciplinado. Seu rosto era marcado por espinhas, não de uma forma grotesca, mas evidenciando o uso de algum tratamento como o com Racutan, talvez. Vestia clássicos converse pretos com jeans azuis, e a camiseta, também preta, escondia seus seios, que não posso dizer que estavam em formação, pois já tinham considerável tamanho, mas que o sutiã largo deixava claro sua falta de conhecimento do poder que aquelas duas coisas tinham sobre os dois corpos cheios de hormônios que a acompanhavam.

Dava pra notar que os dois ainda não levavam o mínimo jeito com as mulheres. Não sabiam o que fazer, muito menos o que dizer, por isso agiam daquela forma desengonçada, como macacos tentando impressionar a única fêmea do bando. Mulher, provavelmente,  única em seu círculo de amizades.

Ela não percebia sua influência, ou ao menos fingia não perceber. Se percebia, se fazia de louca, como se tirasse proveito da situação. Cada movimento seu parecia calculado para levar a imaginação daqueles dois às alturas. Em alguns meses, se já não ocorrido, os meninos confessariam um ao outro sua paixão pela amiga. Ou então, um contaria e o outro se calaria, em prol da amizade. Esse seria, provavelmente, o narigudo, ciente de que não poderia competir com a potencial beleza que o rosto do amigo apresentava.

Dizia a eles, com sua voz um tanto quanto doce, coisas que eu não escutava, mas notava que, de vez em quando, ela espiava se eu ainda estava por ali. Falavam banalidades, como em uma competição para ver quem detinha a atenção dela. Foi nesse momento que eu, distraído, percebi que meu destino chegava. Apressado, juntei essas folhas brancas sobre a pasta que usava como apoio e, com a outra mão, segurava minha mochila.

Passando por entre os três, bati a cabeça no marco da porta em quanto descia do ônibus, sem olhar para trás, com um pouco de vergonha e tentando me concentrar para parecer ocupado. Fiquei em pé, assim que desci, escrevendo estas últimas linhas, enquanto tentava lembrar da primeira vez que senti aquilo que os dois pequenos amantes pareciam sentir, ou então quando fora a última.

Vi em um filme, nos últimos dias, uma mulher dizendo que a amizade entre homens e mulheres vira algo muito esquisito depois dos 13 anos, e é verdade. Era exatamente aquilo que senti que acontecia entre os três. Talvez ela não sentisse o mesmo por nenhum dos dois, mas acredito que nem ela sabia ainda o que pensava sobre aquilo tudo. Se um deles se declarasse, o que acredito veemente que irá acontecer em um futuro próximo, ela entenderia o que acontecia e a finalmente entenderia. Não sei, todo o meu envolvimento naquelas vidas se resumiu ao papel de um espectador que foi presenteado com sentimentos nostálgicos a partir daqueles instantes.

Revirei minha memória, tentava lembrar de todos os rostos femininos que eu já havia entrado em contato, de todas as amigas que já tive, de todas as vezes que eu me hipnotizei com os gestos de alguma delas, das noites que passei acordado, das confissões que fiz com os amigos mais próximos. Um tempo que, por menos saudosista que meus 23 anos me permitam ser, fazia falta. Com meus problemas resumidos a provas e alguns trabalhos a fazer, cuidar da irmã mais nova enquanto meus pais estavam viajando, administrar a mesada entre álbuns de figurinhas e doces, ou então tremer as pernas ao declarar minhas paixonites por alguma menina.

Eu continuei pensando assim, até que, ao virar uma esquina qualquer, no bolso de trás de minha calça, senti meu celular vibrando. Ao pegá-lo, sem pressa, e ler o que dizia na tela; 1 nova mensagem: Carol; abri um tímido sorriso e, como aqueles dois garotos de mais cedo, me senti com treze anos novamente. 


Okay, I know you’re thinking, “What is this? Kid spends a few days in the hospital and all his problems are cured?” But I’m not. I know I’m not. I can tell this is just the beginning. I still need to face my homework, my school, my friends. My dad. But the difference between today and last Saturday is that for the first time in a while, I can look forward to the things I want to do in my life. Bike, eat, drink, talk. Ride the subway, read, read maps. Make maps, make art. Finish the Gates application. Tell my dad not to stress about it. Hug my mom. Kiss my little sister. Kiss my dad. Make out with Noelle. Make out with her more. Take her on a picnic. See a movie with her. See a movie with Aaron. Heck, see a movie with Nia. Have a party. Tell people my story. Volunteer at 3 North. Help people like Bobby. Like Muqtada. Like me. Draw more. Draw a person. Draw a naked person. Draw Noelle naked. Run, travel, swim, skip. Yeah, I know it’s lame, but, whatever. Skip anyway. Breathe… Live.